sexta-feira, 31 de dezembro de 2010


Receita de ano novo



Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)



Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.



Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.


(Carlos Drummond de Andrade)

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010


"Meu coração tá ferido de amar errado. De amar demais, de querer demais, de viver demais. Amar, querer e viver tanto que tudo o mais em volta parece pouco. Seu amor, comparado ao meu, é pouco. Muito pouco. Mas você não vê. Não vê, não enxerga, não sente. Não sente porque não me faz sentir, não enxerga porque não quer. A mulher louca que sempre fui por você, e que mesmo tão cheia de defeitos sempre foi sua. Sempre fui só sua. Sempre quis ser só sua. Sempre te quis só meu. E você, cego de orgulho bobo, surdo de estupidez, nunca notou. Nunca notou que mulheres como eu não são fáceis de se ter; são como flores difíceis de cultivar. Flores que você precisa sempre cuidar, mas que homens que gostam de praticidade não conseguem. Homens que gostam das coisas simples. Eu não sou simples, nunca fui. Mas sempre quis ser sua..."

quarta-feira, 3 de novembro de 2010


" Às vezes me lembro dele. Sem rancor, sem saudade, sem tristeza. Sem nenhum sentimento especial a não ser a certeza de que, afinal, o tempo passou. Nunca mais o vi, depois que foi embora. Nunca nos escrevemos. Não havia mesmo o que dizer. Ou havia? Ah, como não sei responder as minhas próprias perguntas! É possível que, no fundo, sempre restem algumas coisas para serem ditas. É possível também que o afastamento total só aconteça quando não mais restar essas coisas e a gente continua a buscar, a investigar — e principalmente a fingir. Fingir que encontra. Acho que, se tornasse a vê-lo, custaria a reconhecê-lo.

- Caio Fernando Abreu

sábado, 23 de outubro de 2010

METADE


Que a força do medo que tenho não me impeça de ver o que anseio; que a morte de tudo em que acredito não me tape os ouvidos e a boca. Porque metade de mim é o que eu grito, mas a outra metade é silêncio.

Que a música que ouço ao longe seja linda ainda que tristeza; que a mulher que eu amo seja pra sempre amada, mesmo que distante. Porque metade de mim é partida, mas a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor. Apenas respeitadas como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos. Porque metade de mim é o que ouço, mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora se transforme na calma e na paz que eu mereço; que essa tensão que me corrói por dentro seja um dia recompensada. Porque metade de mim é o que eu penso, mas a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.

Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso que eu me lembro ter dado na infância. Por que metade de mim é a lembrança do que fui, a outra metade eu não sei.

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria pra me fazer aquietar o espírito e que o teu silêncio me fale cada vez mais. Porque metade de mim é abrigo, mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta mesmo que ela não saiba e que ninguém a tente complicar, porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer. Porque metade de mim é platéia e a outra metade é canção.

E que a minha loucura seja perdoada. Porque metade de mim é amor e a outra metade também.


(Oswaldo Montenegro)

terça-feira, 20 de julho de 2010


Meu coração tem asas, minha razão anda a pé. (F.M.)

domingo, 11 de julho de 2010


Sinto a dor da despedida de alguém que no caminho se perdeu - foi roubado ou se deixou roubar - é cedo ainda pra dizer, ou melhor, cedo não é, mas não tenho condições de julgar a situação uma vez que ainda a vejo com olhos de quem perdeu, sendo assim, me julgo vitima e ainda luto para não culpar ninguém.
São tantas perdas de uma única vez, tantos lutos unidos e uma dor sem tamanho. São os sonhos, planos, desejos e a pessoa que se perde.
É preciso elaborar o luto de quem, vivo, morre tornando-o ainda mais difícil, pois vivo continua perto, ainda que distante, fazendo a dor ainda maior e o luto mais difícil.
Tenho me policiado pra parar de investigar fatos, detalhes que possam me levar às verdades do acontecido. Mas para que me servem? Em que esta verdade mudará o que aconteceu? A cada nova descoberta, me machuco ainda mais, cutuco a ferida que quase cicatriza e assim volta a doer - ainda que não haja tempestade.
Diante das minhas descobertas me pergunto: “Como você pode não enxergar tantas coisas que contradizem o dito”. Tenho provas cabais que, possivelmente, acabaria com toda a farça criada em torno de você. Mas no momento não me cabe desvendar teus mistérios, afinal, eles são teus.
Me dói te perder, me dói mais te perder sem lutar. Mas estou demasiadamente cansada de sofrer, tão machucada e fraca. Além de não ter armas – a não ser as minhas verdades – suficientes para lutar contra uma pessoa tão maquiavélica (alguém que procura se manter no poder, um alguém enganador, procura parecer bom mas nem sempre o é) e meticulosa (uma pessoa que faz as coisas com cautela e minuciosamente) quanto a que te tem nas mãos no momento. Eu sou apenas um fantasma que vai rondar pra sempre sua existência. E você é uma ferida em meu peito. Ah, como você me dói vez em quando. Me tira o ar, me tira a consciência.
Neste meu processo de elaboração de luto busco te esquecer, mas ainda não me sinto preparada. Leio e releio nossas conversas (estão todas gravadas), vejo nossa foto em meu mural e me preparo para arrancá-la deste. Mas o quero fazer no momento em que não houver mais sentido algum olhar pra você. Não desejo fazê-lo por mágoa, raiva ou tristeza que seja. Desejo fazê-lo no momento em que não houver mais sentido, pra mim, você estar ali, tão perto de mim, tão perto dos meus sonhos. Quando realmente sua presença, – ainda que por foto - não mais, me doer. Mas ainda não me sinto, suficientemente, pronta para arrancar-lhe da minha vida, do meu presente.Um dia você há de se tornar passado, apenas uma lembrança – ainda que dolorosa.
Por enquanto vou me levando, vou te levando comigo, choro, grito, esperneio. Tenho me escondido do mundo na tentativa de me esconder de mim, para me esconder de você. Uma hora reencontro meu caminho e o sigo sozinha, do meu jeito louco, inquieto, verdadeiro, luxuoso e por vezes sujo. Como diria alguém, que no memento não recordo: “Eu preciso te perder pra me encontrar”. E eu me encontrarei, mesmo que sem coração. Quem precisa de um? Melhor uma maquina no lugar.



Fernanda A. Celes

domingo, 4 de julho de 2010


Já se pegou vivendo a mesma situação, exatamente igual até nos detalhes, pela segunda vez na vida? Carpe diem? Não, não, escolhas erradas eu diria.

Mas quem é que escolhe pensando que vai errar? Melhor seria se na hora de fazermos a opção houvesse uma sinopse dos resultados.

Mais uma vez vivi um sonho, foi um castelo de areia habitado só por mim e mais ninguém. Tão estranho pensar-se segura e deparar-se desmoronando, ou melhor, desmoronada, atropelada, demolida. Pior é ver isto acontecer por conta de uma mentira tão tosca, tão banal, tão estampada e ao mesmo tempo não vista. Dias atrás ouvi na TV um breve comentário do diretor Fernando Meirelles a cerca da morte de José Saramago, e ele dizia: “hoje o mundo fica ainda mais cego e mais burro”, imediatamente me questionei até onde irá tamanha cegueira e burrice, pois se o mundo ficar ainda mais cego e mais burro do que já está estaremos perdidos. Algumas pessoas vem desafiando a inteligência de outras de uma forma tão grotesca e absurda. Histórias de pescador? Ledo engano! [...] milagre divino? te pergunto: você acredita em milagres? Fica por sua conta acreditar caro leitor, mas na minha humilde concepção é apenas mais um caso de falta de capacidade cognitiva (que quer dizer burrice) das pessoas envolvidas/afetadas.

E assim vejo, mais uma vez, meus sonhos serem decepados, meus planos roubados por uma mentira ridícula e absurda. A diferença desta vez é que estou me permitindo sentir toda a dor causada ao meu ser, me permito ser cortada, mas me mantenho fiel ao que sinto e acredito. Sinto-me como se houvessem roubado o chão existente sob meus pés e me vejo caindo, da nuvem cor de rosa em que vivia, em meio a toda dor e mágoa que me absorvem por agora. E assim, vai se fazendo mais uma cicatriz em meu coração, como diz Caio Fernando Abreu: “Menos pela cicatriz deixada, uma ferida antiga mede-se mais exatamente pela dor que provocou, e para sempre perdeu-se no momento em que cessou de doer, embora lateje louca nos dias de chuva". E eu sei que latejará, sei vai doer a ponto de me tirar a consciência, mas eu me aguento, eu me ergo, eu me levo... bem desse jeito, me empurrando aos trancos, me apoiando nos barrancos. Eu suporto toda a dor causada não por mim, mas em parte pelas escolhas que eu mesma fiz, consciente de todos os riscos. Assumo-me responsável pelo caminho que optei por seguir. Aguentar-me-ei com toda dor que as tempestades possam me causar, mas me manterei firme e fiel às minhas escolhas e sentimentos.

Estou continuando meu caminho tortuoso, torturante, cheio de luxos e lixos. Estou bebendo, dançando, ouvindo e cantando músicas bregas e depressivas, chorando, comendo, vomitando, ficando sem comer, comendo mais ainda. Um dia há de passar. Por enquanto coloco um band-aid no coração, um óculos escuro nos olhos para esconder as benditas olheiras, um sorriso no rosto e sigo em frente. Ou há algo melhor a ser feito?


O texto orinal colocaria minha vida pessoal demasiadamente exposta, o que por ventura poderia me causar aborrecimentos com os envolvidos nas mentiras, originalmente citadas, tão "bem" escondidas por seus mentirosos. Sendo assim, optei por expor apenas meus pensamentos e sentimentos a cerca dos fatos.




Um beijo e um queijo

Fernanda Almagro Celes (Fê)